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Após morte em SC, pílulas para emagrecer vendidas como naturais deixam médicos e polícia em alerta

Publicado em: 20/09/2019 08:38:50 - Por Luis Carlos Radar
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A morte de uma catarinense após tomar remédio para emagrecer acendeu a preocupação de médicos e o alerta da polícia para a venda indiscriminada de produtos que são rotulados como naturais. Muitas são substâncias compradas sem controle, sem bulas, vendidas em todo o país. A negociação costuma ser à distância, por telefone ou pela internet.


Durante cinco meses, a equipe de reportagem da NSC TV investigou como e onde são encontrados os remédios ditos naturais que prometem milagres. O resultado desse trabalho você confere em três reportagens especiais, a partir desta quinta-feira (19), na série "Pílulas Mortais."


Foi um desses medicamentos que deve ter levado à morte súbita de uma mulher de 27 anos, moradora de Lages, na Serra. Em 6 de abril de 2019, às 13h, ela foi encontrada morta em casa, sem sinais de violência. A causa inicial foi registrada como morte natural. Mas o legista do Instituto Geral de Perícias (IGP) de Santa Catarina desconfiou.


"Chamou-me a atenção como legista que aquelas características imediatas que ela teve no óbito, que ela ficava asfixiada, mostrando uma asfixia interna, mostrando um sofrimento agudo dos pulmões", explicou o médico-legista André Gargioni.


Só tinha uma pista. Ela vinha tomando um emagrecedor, supostamente natural. "O meu instinto de legista dizia que era aquele remédio. E eu liguei pro instituto de análise forense dizendo 'vou mandar o remédio porque foi isso, foi essa coisa aqui que matou", complementou.


Entre as substâncias identificadas, estão as que mataram a mulher na cidade de Lages.


"Foi encontrado diazepam com sibutramina. Diazepam todo mundo usa, sibutramina é autorizado, sim. Mas com doses que devem ser fiscalizadas pelo médico. Você não sabe quanto, qual a quantidade, quantas vezes tomar. Como advertir, como ser advertido pelo médico, olha, estou sentindo isso, que são anúncios de uma doença que tem, ela não foi.


Ela foi persistentemente mantendo-se no uso daquela medicação, perdendo peso, que era o projeto original dela, e negligenciado, entre aspas, aqueles sintomas que culminaram com a morte. Então muita morte pode ter passado batido", disse o perito do IGP.


A equipe da NSC TV entrou em comunidades virtuais, em grupos que discutem e comercializam essas cápsulas, acompanhou as conversas e chegou a fornecedores. Produtos como Natural Dieta, Yellow Black e Royal Slim foram adquiridos. Todas as embalagens foram entregues lacradas para a Polícia Civil, que encaminhou para análise do Instituto Geral de Perícias.


Venda na internet


Nas redes sociais são muitas ofertas e promessas tentadoras para quem quer perder peso. São vários depoimentos publicados.


"Olha aqui, essa calça aqui ela é 38. Pra quem já vestiu 46, e ficava apertado", disse um deles.


Informações são poucas. Nos rótulos e nas bulas não têm a identificação, nem o endereço dos fabricantes. O que se encontra sempre são listas de plantas que, teoricamente, formam o composto.


O produtor Pedro Rockenbach fez contatos com quatro vendedores no país, dois em Santa Catarina. O primeiro contato foi com uma vendedora, de Goiás. O produto oferecido é o Yellow Black, e custa R$ 200. Confira as conversas gravadas por telefone.


Vendedor 1:


"Eu tomei e aí eu passei a indicar pra minhas amigas que deu resultado e aí eu passei a vender também. A partir de 8, 10 dias você já vai notar alguma diferença, nas suas roupas, no organismo", disse a mulher por telefone."


"A água é o ponto. A água que faz perder peso porque ele é um termogênico fitoterápico a base de ervas. E essas ervas, a maioria delas, são fibras, então se você não tomar água na quantidade exata, tipo o Yellow, você vai ter que tomar de seis a sete litros de água por dia."


"Se você fizer certinho como eu tô lhe explicando, em média, dentro de um mês, você consegue eliminar até 12kg, de 5 a 12, tem gente que elimina mais, mas isso aí vai de pessoa pra pessoa."


"Eu com quatro meses, eu eliminei 15 kg. Eu vendo pro Brasil inteiro, pra fora do Brasil."


O produto chegou pelo correio seis dias depois.


Vendedor 2:


O segundo contato foi com a vendedora do Pará. O composto é o Natural Dieta. Na conversa com o produtor por telefone ela explica detalhes.

Vendedora : Só um sai a R$ 250,00.

Produtor: Aí vem quantas cápsulas?

Vendedora: 60

Produtor: Isso aí dá pra quantos dias?

Vendedora: 30 dias, porque toma duas vezes ao dia, mas eu indico só uma porque ele é muito forte. Tomando só um ao dia, resolve o problema. Ele tira a fome mesmo, ele é muito forte.

Produtor: E tem algum efeito colateral, não? 
Tem sim. Boca seca, muita 'mijadeira', pode, às vezes, doer a barriga, o estômago, né? As vezes pode dar dor de cabeça, as vezes dá insônia, as vezes não dá, vai depender de organismo pra organismo.

Produtor: E tem alguma contraindicação?

Vendedora: Tem. Pra quem tem problema de pressão não é bom, porque ele é muito, ele acelera muito o metabolismo da pessoa. 
Na página da vendedora na rede social, a promessa é que, num período de um mês, a pessoa perde de 10 a 13 quilos. Tudo graças a uma combinação de ervas, mas, no fundo, nem a vendedora parece acreditar nessa composição.

Vendedora: "Olha, o povo diz que é natural, mas é remédio pra emagrecer, assim não é natural não. Eu não vou lhe mentir, nenhum remédio para emagrecer sendo que o processo dele é rápido, ele não é natural não, alguma coisinha ele sempre tem , né? "
As cápsulas chegaram oito dias depois da conversa com a vendedora do Pará.


Vendedor 3:


A equipe localizou vendedores também em Santa Catarina. A página é de uma vendedora de Balneário Camboriú, que comercializa o Royal Slim. Ela chama o produto de Milagrinho."100% natural e seguro", mas com algumas ressalvas. A equipe de reportagem foi até o endereço da vendedora. Com uma câmera, registrou o encontro e a conversa.

Produtor: R$ 210, é isso?

Vendedora: Isso.

Produtor: Aqui tem R$ 220. Como ela faz?

Vendedora: Toma duas vezes por dia.


Vendedor 4:


Outra página na internet e as mesmas promessas: emagrecimento rápido e saudável. Nesse caso, a oferta vem da Grande Florianópolis. O primeiro contato com a vendedora foi por telefone. Outra vez, recomendações, que só um médico poderia fazer. O local combinado para a entrega do produto foi uma loja de materiais elétricos, em Palhoça.

Vendedora: É original ervas. R$ 270.

Produtor: Ele é natural?

Vendedora: É tudo com ervas, natural. Tudo chá de boldo, chá do chile, tudo ervas assim conhecidas. Mas como ele tira a fome e o apetite dela, ela não vai querer comer nada. Então ela pode passar mal por causa disso. Vai ficar fraca, vai dar dor de cabeça, vomitar. 
A vendedora mostra que tem outras opções.

Vendedora: Esse aqui (mostra pote) emagreci oito quilos em 15 dias. Mas também depois tava morrendo, porque não comia nada.

Produtor: Como é que é?

Vendedora: Eu passei mal. Parei de tomar porque não sentia fome, não tomava água. Mas eu emagreci oito quilos em 15 dias. Se precisar, pode vir que a gente sempre tem aqui na loja.


Dessa vez o produto comprado foi o Original Ervas.


Médico


Para os médicos esses produtos com comércio livre na internet são uma grande preocupação. Num dos grupos, uma pessoa reclama. E no próprio grupo recebe orientações de outras pessoas.


"Nesse caso, é o uso errado desse caminho. Então a utilização de grupos por telefone que deveriam ser motivadores pra parar, muitas vezes eles vão dar sugestão de como burlar o efeito adverso pra pessoa continuar tomando", disse o médico.


"Teoricamente se alguém num grupo desse esteja vendo isso dai e souber, tem que dizer pare. Esse efeito adverso é algo que planta não dá".


O que chama atenção dos médicos é o acesso fácil aos produtos. "A facilidade na aquisição e da entrega também. São produtos que são entregues pelos correios, ninguém exige um atestado médico, uma recomendação médica, simplesmente o cliente liga e recebe na sua casa."


Na reportagem de sexta-feira (19) você vai saber o resultado da análise feita nesses produtos adquiridos pela equipe de reportagem e entregues para a polícia civil de Santa Catarina.


G1

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